20 de agosto de 2017

Submente


eu vou sussurrar e gritar em uníssono repetidamente aquele mesmo mantra que vira e mexe insiste em nos engolir.
eu vou sussurrar e gritar até te convencer de que eu sei muito bem o que eu estou fazendo
porque eu sou um ser humano e seres humanos são racionais e seres racionais sabem exatamente o que fazem.
eu vou sussurrar e gritar até que você entenda que eu sou dona de mim
e como dona de mim, sou capaz de domar tudo que é meu não só por me pertencer como também por ser humana e racional
porque meu coração é meu e o que é meu sou eu e eu sou humana e racional
eu sei o que eu estou fazendo
eu sei o que eu estou sentindo
eu estou no caminho certo
por mais que o errado esteja tão perto.
eu vou sussurrar e gritar (e gritar) até que o meu sistema nervoso esteja tão ocupado em te convencer de que eu estou no comando que as algemas vão afrouxar e todo o esquema vai por água abaixo
e eu, sem voz e sem força restantes, terei de admitir a farsa que somos
e esquecer que eu me pertenço e que sou humana e racional

tento me convencer de que peguei o caminho de volta dessa floresta vermelha e fria
mas estou tão distraída me perguntando como parei aqui e me recriminando por ser tão burra e egoísta que acabo me enfiando em um atalho
então vem descendo e logo nos alcança o peito um tsunami imenso e intenso
e nossas mentiras nunca tiveram raízes fortes
disso nós sempre soubemos.
(talvez porque nunca tenhamos acreditado que de fato sabíamos o que estávamos fazendo)

quando a culpa e a vergonha me atingem já é tarde demais
tento correr e expulsar todos os sentimentos obscuros através de sussurros e gritos
mas já estou dentro do alçapão e meus tornozelos estão feridos e o barulho do vento é ensurdecedor

talvez eu seja humana e racional e dona de mim
mas é tudo inútil quando estou enfr(aquecida) por grades que não passam de um borrão distante e por vozes que fazem com que eu me sinta nada mais que um animal estúpido e errante.

11 de maio de 2017

Solo

as palmas e as costas das minhas mãos estão geladas e toda a extensão do meu corpo treme e se debate de frio.
o sol está escancarado.
não é o tempo.

minha cabeça dói e meus olhos quase se fecham condenados pelas horas não dormidas e pelo cansaço.

já dormi menos que quatro horas antes. rotineiramente.
não é o sono, não é a exaustão.

está difícil respirar normalmente. e ficar de pé. e agir como uma pessoa comum. agir de acordo com a parte boa de mim que vem se revelando e se sentindo mais à vontade pra existir.

tudo isso porque a parte ruim não se contentou em ficar às escondidas.

será que isso é meu?

será que essa sou eu, a verdadeira eu?
tenho medo de que isso seja como o capuz preto e sujo que em algum momento eu escolhi usar pra estar colada em meus desejos. mas tenho ainda mais medo do contrário. de que o capuz tenha sido a parte boa e bonita e que caiu.
simplesmente caiu.

agora eu me vejo e tenho vontade de me afastar dessa pessoa.

eu me vejo e me pergunto se eu posso confiar em mim mesma. e prontamente respondo que não.
eu me vejo e vejo todo mundo e a vontade é correr até o topo das pedras e gritar enquanto eu souber produzir algum som mas tudo tem de ficar bem e eu não tenho a audácia de explodir por fora como eu me despedaço todos os dias por dentro.
eu digo que tenho de ser honesta mas eu não possuo o direito de desabar.
o meu nome ainda está escrito com a tinta mais duvidosa do mercado. não passa de um amontoado de palavras imundas que eu desaprendi a amar tal como desaprendi a amar todo o resto de mim.

mas é preciso ser mágica e repetir que está tudo quase bem e que em algum momento vai ficar tudo bem.
 
(só que eu não vejo um só fio do quase e guardo tudo isso em uma caixa com sete milhões de trancas, longe de tudo)

mas eu não estava sendo honesta daqui pra frente?

não foi o baú de sentimentos acumulados e reprimidos que iniciaram todo o colapso?

é que talvez eu seja mesmo ruim. talvez eu seja o capuz preto e sujo com cheiro de ditadura e gosto de mentiras e decepções.
e agora tudo que é ruim e consequentemente meu vem me assombrar e me obriga a acumular mais e mais sentimentos de culpa e não pertencimento e medo e solidão.
a velha ansiedade, já adormecida e praticamente esquecida, volta aos pulos e berros.
e o meu corpo a recebe de braços abertos e trêmulos e gelados.

talvez eu seja mesmo ruim e não possa ficar sozinha com os meus pensamentos.

18 de abril de 2017

O curso de um rio


por cantos e por laterais, para longe das elipses molhadas e mortas.
por bolsas escuras e maçãs pálidas, rumo aos lábios ressecados e ressentidos.
descubra as pontas dos meus dedos e perceba que os meus segredos são muito maiores que você e o porquê de eu sempre escolher sapatos que me machucam.
em sua razão de existência constam meus muitos estragos e o caminho que percorre é só uma máscara inútil e degenerada e frágil demais.
o preto que se descasca sobre minhas unhas não é facilmente removível do outro lado do espelho e os medos me forram mais do que mil camadas de algodão em noites geladas de inverno.
está escuro e frio e meus pés não alcançam o chão, mas você sim.
pra quem ultrapassou toda essa estrada nebulosa e cheia de curvas e sombras a todo vapor, o limite é inexistente, as luzes são atraídas e arrastadas.
mas pra mim que sou estrada, só fica marca de pneu como evidência e vertigem ao olhar pra baixo e enxergar pura escuridão.
sua razão de existência é a prova da minha perda absoluta de razão
sua liberdade começa quando as algemas machucam meus pulsos e me empurram contra o chão
e é irônico, mas quando você leva embora minha água é o momento em que eu perco a respiração.
me afogo, me afogo, me afogo.
e sei que essa alma não está salva
e entendo que esse corpo não está são.

24 de março de 2017

Sinal vermelho



ninguém quer ser o sinaleiro desfavorecido pela lei da preferência
não somos pacientes
a ponto de esperar 90 segundos
pra então ser recompensado
com apenas 30 segundos de liberdade

maldita lei da preferência
por que não posso ser o que fica verde por mais tempo?

quero sentir o vento da velocidade
o calor da multidão
o barulho estridente do tráfego
mas demora tanto
pra tão pouco

droga
meus 90 segundos acabaram há 90 segundos
e nada de trânsito
nada de verde
só pisco e pisco e pisco
e nada nada nada de mim

agora sou um sinaleiro pifado
e na minha rua poucos se arriscam
e eu continuo piscando
piscando
piscando
e doendo e doendo e doendo

se ao menos eu estivesse em uma grande avenida
se fosse inevitável passar por mim
se eu não fosse sempre o sinaleiro desfavorecido
seja por onde ou por como estou
e principalmente
se a espera não doesse tanto

ele pode até ser paciente como todos dizem
mas eu não sou
e eu existo
24h por dia
concretamente
e sinto
e espero
e pifo
e sinto
e pisco
e sinto
e espero mais e mais.

o sinaleiro desfavorecido e impaciente
o sinaleiro pifado e ainda crente
de que um dia não precise mais esperar.

22 de março de 2017

Deixar ir


não é sobre a vontade divina ou o tempo regente das galáxias
nem mesmo sobre o ciclo de idas e partidas brotando sob a terra firme e molhada
sugando e devolvendo nutriente
nos lembrando sempre de que tudo que nasce morre e tudo que morre vira vida novamente

um senhor místico e grisalho não te empurrará contra a parede
martelando o dedo sobre um relógio de pulso desgastado 
tempo tempo tempo
o seu está acabado

as forças do universo não vão emergir e subir pelas suas canelas
nem a mãe natureza irá beijar seus lábios contra sua própria vontade
porque é disso que se trata
do reconhecimento da inegável verdade
que te fará consentir e se sentir à vontade
pra enfim se deixar ir

entender que apesar de sua postura rígida e firme e séria demais
você experimentou da seiva bruta da maneira que pôde e elaborou açúcar e outros sabores
criou raízes e espalhou sementes e flores
por cada pântano lamacento e por cada calçada de pedra
por todo todo lugar por onde passou e que te transpassou

isso tudo quando de fato era você 
mas agora
não importa por onde passou ou pelo que passou
simplesmente
passou

passou do ponto
seu corpo cumpriu sua missão
e agora padece padece
não emite nada além de dor
nenhum outro som

é hora de aceitar que já não é você
habitante integral dessa pele gelada e pálida
que o limite existe e não é o fim
e você é preciosidade pura
(mas) seu coração tem cor de marfim

e não precisa ter medo
que não tá escurecendo
é só o pôr do sol
te abraçando
te ronronando um segredo

mas pra ouvir você precisa se permitir
como jamais se permitiu

deixar ir

e tudo bem deixar ir.
tá tudo bem.

20 de fevereiro de 2017

Neon, neon, neon


meus ouvidos
já tão, tão imunes
ao seu bom dia confessionário
e a sua imagem
diluída em fragmentos
no meu imaginário

seu nome
escrito com tinta invisível
e sua morada
aqui travada
no meu peito

você parece querer frente
parece querer distância
e me deixa confusa, mas não reclamo
é agradável e é plano

contanto que você continue aí
tudo está bem
por mais que eu queira que se aproxime
e me mostre mais
me mostre além

não reclamo
mas é um conforto desconfortável
e eu troco de lado e balbucio silêncio
imensamente confusa e pouco decifrável

e embora meus cinco sentidos
vociferem pra que você vá
o sexto quer luz negra e tinta neon
só sabe ficar no mesmo tom

até que quando menos se espera
vem o sol, chamuscante e atrevido
ele passeia pelas fendas
e acaricia seu rosto
lugar
estritamente
proibido

tape os olhos
continue entre as nuvens
rápido, aja!
se esconda, fuja!

não dá
não dá
é tarde demais
é tão baixo e tão escuro
é tão pouco muro

um dois três
agrupe os números
em pequenas quantidades
e repita comigo outra vez

eu sou pequena sim
mas sou maior que esse muro
talvez não seja de todo ruim

um dois três
paro de contar
e quando paro eu sei
meus nervos vão te encontrar

aos poucos e aos cacos o espreito
não mais cerradas as palmas
liberdade, liberdade
liberdade ao percevejo

mas o que aterrizam são as córneas
o que se suspendem são os lábios
o que se vê não cai aos pedaços
o que é doce é mais que mero melaço

de repente é tudo enigma e novidade e estranheza
e eu não quero correr ou me virar
meus membros estão livres
mas eu escolho ficar

eu quero ficar
agora mais do que nunca
mesmo percorrendo seus traços
talvez
por ter percorrido seus traços

urgente, você me enfrenta
"esteja mais atenta"
eu estou
agora estou
e mais do que isso
sedenta

sedenta para anunciar
que sou eu a criadora de todas
todas as mil milhas entre nós
meu nome é neon
meu sobrenome, fantasia
e você é você e é o sol
sorria sorria sorria

nem nome nem endereço
nem o respirar nem o mexer dos seus dedos
te ver sob a luz de todas as cores
é o que mata todos os meus medos

e eu não preciso de luz nem de tinta
nem mesmo de palavras
pois pela primeira vez
consigo ser sucinta

basta ter desperto qualquer sentido
e todo o resto de mim é preenchido.

9 de fevereiro de 2017

Eu não sei trocar as cordas do meu violão


Do primeiro ao terceiro instrumento, dos conjuntos básicos aos bonitinhos com pontas felpudas, foi você quem trocou as cordas do meu violão. Parecia estar tão seguro de si apertando e afrouxando as tarraxas, comprimindo e esticando as cordas. Era prudente. Garantido. Mas não era essa a razão principal pra esse trabalho ter sido seu durante tanto tempo.
Eu te entregava o violão e o mi-si-sol-ré-lá-mi não porque você sabia executar a tarefa melhor do que eu. Você sabia, muito mais que eu e minhas mãos desajeitadas, e não era nem a sua praia. Mas não era isso. É que era bom ter mais um momento pra gente compartilhar. Algo a mais pra chamar de nosso. Assim como as mangas e as laranjas que você descascava e nós dividíamos. Era pouco, era pequeno, era simples. E era nosso.
Eu gostava de depender das suas mãos ásperas e habilidosas pra cuidar do meu violão. Era mais um jeito de você cuidar de mim. Era mais um laço entre a gente, mais um lugar onde eu era livre de responsabilidades. Não precisava esquentar a cabeça retirando, colocando e afinando as cordas com cuidado. Eu simplesmente não precisava porque era um problema seu. Mais uma de suas obrigações paternas.
Atribuí essa obrigação a você porque era como um contrato. E nas linhas desse documento implícito, dizia que você tinha pelo menos mais 10 anos prestando serviços pra mim, cumprindo sua tarefa de trocar as cordas do meu violão. Como eu era otimista, chegava a acreditar que eram 20 ou até 30 anos pela frente o que tínhamos. Seu coração não era dos melhores, mas eu confiava no marca-passo. A medicina moderna me prometeu um funcionário competente e presente.
Não me preocupava com o seu coração, nunca me preocupei, e no final das contas, eu estava certa da não-angústia. Talvez, se dependesse só dele, você teria sido um velho centenário. Seu marca-passo te levaria longe, bem longe, e esse longe te deixaria bem perto de mim. Te deixaria vivo. No entanto, eu me esquecia que tinha ali um corpo inteiro, com veias, órgãos e sistemas. E que bastava um forasteiro com más intenções para que todo o seu organismo entrasse gradativamente em colapso e seu corpo não fosse forte o suficiente e sua atividade cerebral cessasse e seu coração parasse de bater até que o marca-passo se tornasse obsoleto.
Desde então, eu fui cautelosa e não permiti que nenhuma corda arrebentasse (especialmente a maldita da mizinha). Assim, além de evitar o susto do instante, eu não preciso, obrigatoriamente, trocar as cordas. Quer dizer, eu sei que eu preciso. Li em algum lugar que o ideal é que elas sejam trocadas de seis em seis meses. Mas me arrisco a dizer que elas são as mesmas há mais de dois anos. Porque elas nunca arrebentaram e eu nunca senti que precisava aprender a trocá-las, então eu nunca aprendi. Nunca nem tentei.
Agora eu não sei trocar as cordas do meu violão, porque não me acostumei à sua ausência tal como me acostumei com o que era nosso. Eu me lembro disso todas as vezes em que olho pro meu violão mal cuidado no canto do meu quarto. Todas as vezes em que toco uma música e o som não é tão bom como imagino que poderia ser. Todas as vezes em que minha mente não consegue se desviar de você e do quanto eu gostaria que estivesse aqui. Todas as vezes em que odeio o futuro do pretérito com todas as minhas forças.
Você deveria estar aqui. Nós assinamos esse contrato imaginário com sangue, lembra? Deveria, poderia, ia, ia, ia.
Não, você não está aqui. Não no presente do indicativo. E não vai estar nunca mais. E é por isso que eu preciso trocar as cordas do meu violão. Eu preciso aprender as descascar mangas e laranjas direito. Eu preciso lidar com um mundo em que você não troca minhas cordas nem divide frutas comigo. Porque esse é o mundo em que eu vivo. Essa é a realidade.
O que foi nosso um dia agora precisa ser meu. Por mais que eu arrebente cordas, deixe as laranjas feias e machuque meus dedos no processo.
Já comecei pela manga. Demorei longuíssimos minutos e o resultado foi uma manga não muito simpática, mas ao menos tava deliciosa. Não tanto quanto a nossa manga, mas ela bem que se esforçou.
Um dia eu aprendo.