18 de abril de 2017

O curso de um rio


por cantos e por laterais, para longe das elipses molhadas e mortas.
por bolsas escuras e maçãs pálidas, rumo aos lábios ressecados e ressentidos.
descubra as pontas dos meus dedos e perceba que os meus segredos são muito maiores que você e o porquê de eu sempre escolher sapatos que me machucam.
em sua razão de existência constam meus muitos estragos e o caminho que percorre é só uma máscara inútil e degenerada e frágil demais.
o preto que se descasca sobre minhas unhas não é facilmente removível do outro lado do espelho e os medos me forram mais do que mil camadas de algodão em noites geladas de inverno.
está escuro e frio e meus pés não alcançam o chão, mas você sim.
pra quem ultrapassou toda essa estrada nebulosa e cheia de curvas e sombras a todo vapor, o limite é inexistente, as luzes são atraídas e arrastadas.
mas pra mim que sou estrada, só fica marca de pneu como evidência e vertigem ao olhar pra baixo e enxergar pura escuridão.
sua razão de existência é a prova da minha perda absoluta de razão
sua liberdade começa quando as algemas machucam meus pulsos e me empurram contra o chão
e é irônico, mas quando você leva embora minha água é o momento em que eu perco a respiração.
me afogo, me afogo, me afogo.
e sei que essa alma não está salva
e entendo que esse corpo não está são.

22 de março de 2017

Deixar ir


não é sobre a vontade divina ou o tempo regente das galáxias
nem mesmo sobre o ciclo de idas e partidas brotando sob a terra firme e molhada
sugando e devolvendo nutriente
nos lembrando sempre de que tudo que nasce morre e tudo que morre vira vida novamente

um senhor místico e grisalho não te empurrará contra a parede
martelando o dedo sobre um relógio de pulso desgastado 
tempo tempo tempo
o seu está acabado

as forças do universo não vão emergir e subir pelas suas canelas
nem a mãe natureza irá beijar seus lábios contra sua própria vontade
porque é disso que se trata
do reconhecimento da inegável verdade
que te fará consentir e se sentir à vontade
pra enfim se deixar ir

entender que apesar de sua postura rígida e firme e séria demais
você experimentou da seiva bruta da maneira que pôde e elaborou açúcar e outros sabores
criou raízes e espalhou sementes e flores
por cada pântano lamacento e por cada calçada de pedra
por todo todo lugar por onde passou e que te transpassou

isso tudo quando de fato era você 
mas agora
não importa por onde passou ou pelo que passou
simplesmente
passou

passou do ponto
seu corpo cumpriu sua missão
e agora padece padece
não emite nada além de dor
nenhum outro som

é hora de aceitar que já não é você
habitante integral dessa pele gelada e pálida
que o limite existe e não é o fim
e você é preciosidade pura
(mas) seu coração tem cor de marfim

e não precisa ter medo
que não tá escurecendo
é só o pôr do sol
te abraçando
te ronronando um segredo

mas pra ouvir você precisa se permitir
como jamais se permitiu

deixar ir

e tudo bem deixar ir.
tá tudo bem.

20 de fevereiro de 2017

Neon, neon, neon


meus ouvidos
já tão, tão imunes
ao seu bom dia confessionário
e a sua imagem
diluída em fragmentos
no meu imaginário

seu nome
escrito com tinta invisível
e sua morada
aqui travada
no meu peito

você parece querer frente
parece querer distância
e me deixa confusa, mas não reclamo
é agradável e é plano

contanto que você continue aí
tudo está bem
por mais que eu queira que se aproxime
e me mostre mais
me mostre além

não reclamo
mas é um conforto desconfortável
e eu troco de lado e balbucio silêncio
imensamente confusa e pouco decifrável

e embora meus cinco sentidos
vociferem pra que você vá
o sexto quer luz negra e tinta neon
só sabe ficar no mesmo tom

até que quando menos se espera
vem o sol, chamuscante e atrevido
ele passeia pelas fendas
e acaricia seu rosto
lugar
estritamente
proibido

tape os olhos
continue entre as nuvens
rápido, aja!
se esconda, fuja!

não dá
não dá
é tarde demais
é tão baixo e tão escuro
é tão pouco muro

um dois três
agrupe os números
em pequenas quantidades
e repita comigo outra vez

eu sou pequena sim
mas sou maior que esse muro
talvez não seja de todo ruim

um dois três
paro de contar
e quando paro eu sei
meus nervos vão te encontrar

aos poucos e aos cacos o espreito
não mais cerradas as palmas
liberdade, liberdade
liberdade ao percevejo

mas o que aterrizam são as córneas
o que se suspendem são os lábios
o que se vê não cai aos pedaços
o que é doce é mais que mero melaço

de repente é tudo enigma e novidade e estranheza
e eu não quero correr ou me virar
meus membros estão livres
mas eu escolho ficar

eu quero ficar
agora mais do que nunca
mesmo percorrendo seus traços
talvez
por ter percorrido seus traços

urgente, você me enfrenta
"esteja mais atenta"
eu estou
agora estou
e mais do que isso
sedenta

sedenta para anunciar
que sou eu a criadora de todas
todas as mil milhas entre nós
meu nome é neon
meu sobrenome, fantasia
e você é você e é o sol
sorria sorria sorria

nem nome nem endereço
nem o respirar nem o mexer dos seus dedos
te ver sob a luz de todas as cores
é o que mata todos os meus medos

e eu não preciso de luz nem de tinta
nem mesmo de palavras
pois pela primeira vez
consigo ser sucinta

basta ter desperto qualquer sentido
e todo o resto de mim é preenchido.

9 de fevereiro de 2017

Eu não sei trocar as cordas do meu violão


Do primeiro ao terceiro instrumento, dos conjuntos básicos aos bonitinhos com pontas felpudas, foi você quem trocou as cordas do meu violão. Parecia estar tão seguro de si apertando e afrouxando as tarraxas, comprimindo e esticando as cordas. Era prudente. Garantido. Mas não era essa a razão principal pra esse trabalho ter sido seu durante tanto tempo.
Eu te entregava o violão e o mi-si-sol-ré-lá-mi não porque você sabia executar a tarefa melhor do que eu. Você sabia, muito mais que eu e minhas mãos desajeitadas, e não era nem a sua praia. Mas não era isso. É que era bom ter mais um momento pra gente compartilhar. Algo a mais pra chamar de nosso. Assim como as mangas e as laranjas que você descascava e nós dividíamos. Era pouco, era pequeno, era simples. E era nosso.
Eu gostava de depender das suas mãos ásperas e habilidosas pra cuidar do meu violão. Era mais um jeito de você cuidar de mim. Era mais um laço entre a gente, mais um lugar onde eu era livre de responsabilidades. Não precisava esquentar a cabeça retirando, colocando e afinando as cordas com cuidado. Eu simplesmente não precisava porque era um problema seu. Mais uma de suas obrigações paternas.
Atribuí essa obrigação a você porque era como um contrato. E nas linhas desse documento implícito, dizia que você tinha pelo menos mais 10 anos prestando serviços pra mim, cumprindo sua tarefa de trocar as cordas do meu violão. Como eu era otimista, chegava a acreditar que eram 20 ou até 30 anos pela frente o que tínhamos. Seu coração não era dos melhores, mas eu confiava no marca-passo. A medicina moderna me prometeu um funcionário competente e presente.
Não me preocupava com o seu coração, nunca me preocupei, e no final das contas, eu estava certa da não-angústia. Talvez, se dependesse só dele, você teria sido um velho centenário. Seu marca-passo te levaria longe, bem longe, e esse longe te deixaria bem perto de mim. Te deixaria vivo. No entanto, eu me esquecia que tinha ali um corpo inteiro, com veias, órgãos e sistemas. E que bastava um forasteiro com más intenções para que todo o seu organismo entrasse gradativamente em colapso e seu corpo não fosse forte o suficiente e sua atividade cerebral cessasse e seu coração parasse de bater até que o marca-passo se tornasse obsoleto.
Desde então, eu fui cautelosa e não permiti que nenhuma corda arrebentasse (especialmente a maldita da mizinha). Assim, além de evitar o susto do instante, eu não preciso, obrigatoriamente, trocar as cordas. Quer dizer, eu sei que eu preciso. Li em algum lugar que o ideal é que elas sejam trocadas de seis em seis meses. Mas me arrisco a dizer que elas são as mesmas há mais de dois anos. Porque elas nunca arrebentaram e eu nunca senti que precisava aprender a trocá-las, então eu nunca aprendi. Nunca nem tentei.
Agora eu não sei trocar as cordas do meu violão, porque não me acostumei à sua ausência tal como me acostumei com o que era nosso. Eu me lembro disso todas as vezes em que olho pro meu violão mal cuidado no canto do meu quarto. Todas as vezes em que toco uma música e o som não é tão bom como imagino que poderia ser. Todas as vezes em que minha mente não consegue se desviar de você e do quanto eu gostaria que estivesse aqui. Todas as vezes em que odeio o futuro do pretérito com todas as minhas forças.
Você deveria estar aqui. Nós assinamos esse contrato imaginário com sangue, lembra? Deveria, poderia, ia, ia, ia.
Não, você não está aqui. Não no presente do indicativo. E não vai estar nunca mais. E é por isso que eu preciso trocar as cordas do meu violão. Eu preciso aprender as descascar mangas e laranjas direito. Eu preciso lidar com um mundo em que você não troca minhas cordas nem divide frutas comigo. Porque esse é o mundo em que eu vivo. Essa é a realidade.
O que foi nosso um dia agora precisa ser meu. Por mais que eu arrebente cordas, deixe as laranjas feias e machuque meus dedos no processo.
Já comecei pela manga. Demorei longuíssimos minutos e o resultado foi uma manga não muito simpática, mas ao menos tava deliciosa. Não tanto quanto a nossa manga, mas ela bem que se esforçou.
Um dia eu aprendo.

25 de janeiro de 2017

Sobre a gente ser um remix clichê de merda


Tudo relativo ao assunto "originalidade" sempre me intrigou. O que, de fato, é ser original? É possível sê-lo em um mundo tão vasto e corrente, onde tudo o que poderia ser inventado parece já existir?
Eu observava certas invenções com meus enormes olhos acusadores e pensava: "isso eu já vi em algum lugar, definitivamente é um plágio". Até que eu assisti um documentário chamado "Tudo é um remix".
Caramba, foi uma experiência tanto devastadora quanto fascinante. Estava eu lá, sentada na cadeira desconfortável do colégio, tentando camuflar o quão transformada eu me sentia. De repente, tudo fazia sentido.
Tudo é um remix e todos somos um remix, e isso é lindo, tão lindo, e saber disso, altamente revelador e libertador.
Todas as vezes que eu vejo uma discussão sobre os limites entre a inspiração e o plágio em grupos de escritores, eu me lembro das imagens daquele documentário. Eu me lembro o quanto mesmo os clássicos são espelhos de outros ainda mais antigos, apenas com desenvolvimentos e palavras diferentes. É claro que precisamos pensar essa discussão e debater a respeito, porque a cópia descarada existe. Mas não nos aprofundemos nisso.
O que eu quero dizer aqui se resume a uma simples frase: cada um de nós é um bendito (ou maldito) remix.
Nós somos uma composição de tudo aquilo que nos cerca. Somos como grandes esponjas, absorvendo tudo que nossos dedos tocam.
Eu não sou apenas eu. Eu sou a pessoa que eu cumprimento na rua, eu sou a risada contida da minha irmã mais nova, eu sou o jeito estranho de esfregar os olhos da minha melhor amiga.
Eu sou cada música que eu escuto e cada música que eu canto, cada história que eu leio e cada história que eu escrevo. E dessa forma, cada história que eu escrevo tem um pedaço das histórias que leio, assim como as melodias das músicas que penetram meus ouvidos se fundem e se confundem, ora harmonicamente, ora em total desarmonia.
Somos resultado de cada uma das nossas experiências, pois como é dito na minha citação favorita, nenhum de nós é uma ilha - e não há como ser, nem mesmo com enorme esforço.
E se nós resultamos de nossas experiências e cada ser humano possui vivências diferentes, todos nós somos únicos, peculiares, originais. A única patente possível é a que temos de nós mesmos. A originalidade está em nossas veias, circulando por cada pedacinho do nosso corpo, adentrando cada órgão, cada célula, cada átomo, cada próton, cada indício de vida.
O mistério maior da vida, tirando nós mesmos e nossos desejos inconscientes e insensatos, é o desconhecido que não habita nossa própria pele, que existe por possuir um conjunto de experiências particular e que, por isso, tenta recriar o mundo de acordo com o que seus olhos veem, de acordo com o que seus instintos mandam.
É tudo um grande clichê, exceto pela essência indecifrável nos olhos e nas mãos de cada um de nós. E então, nada é um clichê.
Somos todos a droga de um remix e temos de aprender a lidar com isso, porque embora seja assustador, sufocante e até mesmo revoltante para os seres extraordinários que somos, por estarmos sempre querendo expor o que nos particulariza sem que nos desvinculemos do meio social, é uma verdade quase tão bonita quanto o brilho das estrelas.

1 de janeiro de 2017

Desen(canto)


as palavras são momento
metáfora impulsiva
esquecida pelo tempo

ora formam o medo
a recusa das ligações
e a repulsa do desejo

e então misturam-se
trazem a lua minguante
uma sensação amena
mas não menos angustiante

e aceitam logo
sem grande resistência
a química existe
e não se esgueira

vão ficando fortes
e imponentes e agressivas
criando uma legião
com acentos e tremas

elas se viram contra você
levam ao peito
objeto afiado
e você
desarmado
não se mexe

aceitação
é o que se passa
pois apesar do medo
você continua impassivo
e a morfina percorre seu corpo
por isso é que você afirma
"não me canso"

mas vem o agente tempo
com seu quê de tormento
e de verdade também

a alienação cede
e pode ser difícil
mas sim
você se cansa

malditas palavras
insensatas e instantâneas
são todas da boca pra fora
e uma hora
você para
e nas lágrimas se demora

você se esqueceu
que o momento só parece poesia
mas a poesia é que é momento

você se esqueceu
que não alívio e apoio do vento
mas elas voam
num simples sopro
num simples passo
num simples canto.

28 de novembro de 2016

A infância que respira entre papéis e espelhos



Em menos de 40 dias, 2016 ganha um ponto final. Para alguns, é aliviante deixar ir um tempo que de tanta aflição, de tantos danos trazidos, pareceu ter sido dilatado. Para outros, as badaladas da meia noite serão o carimbo perfeito para um ano de concretizações e aprendizados, trazendo, ao final da contagem regressiva, a sensação de dever cumprido. Eu, particularmente, encaixo as minhas impressões em ambos. É um limbo do qual me orgulho, pois significa que todas as batalhas, as externas e as internas, não foram em vão; pelo contrário, trouxeram um amontoado de constatações.

As constatações trazidas são como pílulas tranquilizantes grandes e amargas - necessárias, porém incômodas -, cujos efeitos causados ecoam por um período indeterminado. Ao menos quando tudo é novo, desde a superfície da sua pele até a sua percepção de mundo, os efeitos são para a vida inteira - especialmente porque a vida mal começou. E por mais que nos avisem disso excessivamente, por mais que todas as nossas células estejam (secretamente) cientes, é difícil aceitar. Mas é essa a verdade maior: embora a gente queira muito, não há como adiar o momento de crescer, é preciso, mais cedo ou mais tarde, encarar as opções e marcar o gabarito. As escolhas são, inevitavelmente, parte crucial do que a gente chama de crescer.

Crescer, esse verbo que me intriga e me assusta por mais anos do que eu consigo contar. Oficialmente, esse medo veio à público aos meus 10 anos, de modo brando e particular, através de um pequeno texto meu publicado em um jornal, intitulado "Infância tem prazo de validade?". Nele, eu fiz uma espécie de reflexão a respeito do momento em que nos olhamos no espelho e percebemos que a imagem daquela criança inocente deixará de existir um dia, dando lugar a uma pessoa quase completamente estranha aos nossos olhos. As feridas no joelho, que pouco importavam quando escondidas sob um band-aid colorido, dão lugar às feridas da alma e o que antes era mágico, passa a ser banal. Andar de bicicleta, experimentar um sorvete diferente, deitar na grama... por mais que o gosto ainda seja açucarado, a sensação não chega nem perto de suas origens. É um resquício do que um dia já foi, mais nada.

Apesar de ser uma verdade simples, fácil de ser percebida mesmo antes de ser sentida, pois afinal, o tempo não mente, nem para, é complicado admitir a diferença entre o brilho de antes e o de agora por uma razão que eu, com meus 10 anos, não pude captar: a gente cresce e muda, de fato, mas por trás dessa nova pele, ainda habita a mesma criança que um dia se olhou no espelho e temeu que o tempo lhe roubasse. A criança está ali, escondida em algum lugar aquecido e seguro. E toda a estranheza que nós vemos vê diante de nós mesmos não se deve apenas às cascas que criamos quando nos machucamos ou às máscaras que surgiram devido à nossa necessidade de adaptação e aceitação. O principal motivo que nos leva a pensar que a criança desapareceu e nos deixou sozinhos na companhia de um ser estranho é a substituição da parte mais importante dos nossos corpos: os olhos.

Quando você abandona a zona de conforto, por vontade própria ou não, e passa a conhecer o mundo mais de perto, sem idealizações, com todas as imperfeições e injustiças, o mundo deixa de ser acolhedor. De repente, você descobre que o maior pacifista da história, aquele que clamava que você tinha de ser a mudança que quer no mundo, era tão racista quanto o seu vizinho. Você descobre que os vencedores da segunda guerra eram tão ruins quanto o maior vilão e que outras guerras derramam sangue debaixo do seu nariz diariamente. E então a pessoa em quem você mais se espelhava em vários níveis era rodeada de segredos e mentiras que machucaram mais gente do que você pode imaginar. Pouco a pouco, todos os seus heróis vão sendo desconstruídos, até vir à tona a conclusão de que mesmo você tem um lado sombrio. E é por toda essa ruindade humana que o mundo se torna menos leve, menos bonito, menos mágico. Fatalmente, os olhos mudam e jamais poderão voltar a ser como antes.

Assim, é mais do que visível a existência de um dilema paradoxal ao longo das nossas vidas, enquanto nós crescemos e tropeçamos: o passado e o presente, juntos no mesmo ser. No entanto, analisando os dois pedaços, encontramos tantas semelhanças que o paradoxo, apesar de trazer tantas indagações, nem parece tão grande. De um lado, a criança que escrevia à mão histórias de princesas independentes, que arrastava a melhor amiga até a rádio em pleno feriado pra um "teste musical", que fugia de declarações de qualquer coisa que soasse ligeiramente como amor e que esperava ansiosamente o nascer do sol do dia 25 de dezembro. Do outro, alguém que escreve histórias de personagens desajustadas e bem distantes da realeza, mas ainda independentes e fortes, que encontrou coragem e paixão suficientes pra cantar em palcos e passar 12 horas em pé enfrentando frio e calor pra um teste musical (verdadeiro dessa vez), que continua fugindo, mesmo que de um jeito menos bruto, dos próprios sentimentos e dos sentimentos alheios e que ainda acha o nascer do sol o momento mais bonito do dia, mas que não espera tão ansiosamente por ele no dia 25. Essas duas partes nossas, criadas em horas tão distintas das nossas vidas, carregam a mesma essência. É a mesma pessoa, só que carregando nas costas um mundo mais pesado à medida que o tempo passa.

É por tudo isso que o tempo inteiro nós sentimos que não nos encaixamos completamente e em todo fim de ano, existe uma demanda maior por respostas a respeito de quem nós somos e de como tornar a coexistência de todas as faces do nosso eu menos complicada. Sinceramente, até agora eu não encontrei nenhuma resposta satisfatória e eu duvido que um dia eu vá encontrar, mas ser um paradoxo é o único jeito de existir. O máximo que nós podemos fazer é parar de adiar ou empurrar as nossas escolhas para as outras pessoas; o destino tem de pertencer a nós mesmos, só. Nem a si mesmo o destino pertence, ele é fruto de cada detalhe de cada escolha, podendo mudar a qualquer instante, a qualquer desvio. Às vezes, temos de escolher de maneira sensata e em outras - eu diria que na maioria -, não é necessário usar a razão, o impulso basta. Como saber qual dos dois modos utilizar? Não faço a menor ideia e qualquer um que ousa dizer que sabe, na verdade não sabe de nada. É essa a graça: o momento de marcar o gabarito é sempre uma incerteza e o resultado, uma surpresa.

Além disso, é preciso simplesmente abraçar a nossa história sem deixar que ela nos defina, não fugindo de quem nós somos, nem nos conformando com os nossos defeitos ou com os do mundo, acreditando que o momento de marcar o gabarito é uma nova chance de recomeçar. E o momento de avaliar ou de fazer escolhas, o momento de se reinventar, pode ser qualquer momento, mas tudo bem usar a desculpa da meia noite. O ano é, afinal, só uma delimitação que nós inventamos pra sentir que estamos no controle do tempo, mas acaba definindo muita coisa. É graças a essa marcação do tempo que sabemos quando nossos antigos heróis existiram. Aqueles que o tempo matou diante dos nossos olhos, antes ou depois de mortos. E é também graças ao ano que podemos nos entender de um jeito mais organizado e ter ao menos a ilusão de que o fim dele traz consigo a caixa de Pandora ou a chave de ouro.

Um ano, ainda que traga todas as verdades que procuramos (em um universo paralelo, é claro), é apenas um ano. E as badaladas não são mágicas, mas se nós deixarmos, tudo que parecia ser capítulo pode fazer parte do prólogo e podemos ser autores e protagonistas das nossas próprias histórias. Apenas com caneta permanente, evidentemente, mas com uma infinidade de folhas ao nosso alcance.

Nada além da vida precisa ter prazo de validade; basta a gente se permitir.